segunda-feira, 18 de maio de 2009
_(I)
era cedo, embora o sol não tivesse saído . ela permanecia deitada na cama, escutando a mesma música por indefinidas vezes . fazia leves movimentos e tentava alcançar o lugar de onde saía o som, mas parecia desanimar sempre . suspirava, um ar cansado, um ar pesado . ao suspirar, um barulho veio passando pelo corredor, um barulho de chave na porta, não na sua porta, na outra . a porta se abriu, se fechou, e então ela sentiu o cheiro . o ar se tornou então mais leve, e era um cheiro inebriante, tão .. familiar . sorrindo, os pés pareciam tão gelados quanto o chão . o cabelo parecia um emaranhado, mas ela abriu a porta como se fosse absolutamente normal . e era . reinava uma escuridão quase palpável, mas era como se houvesse luz, e a porta estava perfeitamente trancada, a casa exatamente vazia . só o cheiro mudara, e num ato de desespero, o seu corpo se encolheu ali, no canto da porta, e ela sussurrou 'pai' como se fosse um nome próprio . o silêncio ecoou, mudo, e ela tampou os ouvidos, fechou os olhos até que doessem . uma bolsa grande, de um desbotado que um dia fôra preto, e cheia de bolsos, começou a se encher também com outras coisas . um caderno com folhas coloridas, um óculos de sol, uma toalha de mesa, uma maça pequenina e doendo de tão vermelha . uma gaveta derrubou doces e um perfume se quebrou no chão . mas o cheiro era o mesmo que tinha feito aquilo começar, no meio da madrugada .. a bolsa subiu num ombro, um livro debaixo do braço . alguém destrancou a porta, saiu e ouviu-se um estrondo . respiração ofegante, olhos marejados . a porta novamente se abriu, os olhos entraram na sala escura, depois num quarto pequeno . os pés que os carregavam, tiraram o tênis, depois as meias . pisaram o tapete, em adoração, como num ritual . ela estendeu as mãos pequeninas para uma caixa grande, colocou ela mais perto, subiu . tirou outra caixa do alto, tirou a tampa . num gesto brando e cheio de ódio, a caixa se virou delicadamente, esparramando tantos papéis e cartões quanto conseguia . parecia uma festa de carnaval, e dava uma vontade de pular ali no meio . mas a menina esperou . ela olhava deliciada os papéis pousarem em cada canto que encontravam . seu olhos acompanharam um em especial, enquanto ele descia, e parecia ter bem menos pressa . era de um papel muito fino, quase transparente, com uma mancha escura num canto, que parecia ser o mais pesado, parecia ser a única coisa que convidava o papel a não continuar no ar . de brandos, seus olhos passaram a assumir uma cor cinza, e ela desceu da caixa . sentia algumas coisas se prendendo a seus pés, e caminhava em direção ao último papel, que acabara de encontrar estabilidade . suas mãos pareciam hesitar enquanto o papel as encontrava e era colocado na bolsa . passos leves .. e ouviu-se um estrondo . na outra porta .
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2 comentários:
niiiiiiiiiiiiiiii...
virgi maria...
eu acho que é tão complexo qto um filme que vi hoje...
e olha que o filme durou mais de 1h....rsrs
profundo pra variar...mas mto me agrada..
beeeijo mocinha
Intrigante! De onde você tira essas idéias?
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